
- Não entendo como eles viviam, antigamente.
- Como assim?
- Televisão, por exemplo. Eles precisavam de telas enormes, que ficavam sobre móveis ou penduradas na parede. E para acionar, tinham um controle, só para ela.
- Quando eu era pequena... Lembro disso, na casa dos meus pais.
- Pois é, não faz tanto tempo, coisa de uns trinta anos. Nem imagino como será o mundo daqui a trinta anos.
- Não dá para imaginar, mesmo.
- Outra coisa que eles usavam muito era um aparelho para as pessoas se comunicarem à distância.
- Credo, um aparelho?
- Celular, era o nome. Você tem os registros, é só procurar. Era uma espécie de caixinha colorida, na qual se podia fazer quase tudo, se alguém soubesse como usar.
- Mas como eles se comunicavam?
- Cada caixinha tinha um número próprio. Você apertava o número na sua caixinha e a caixinha do outro respondia. Uma loucura.
- É mesmo, era tudo tão difícil...
- E os computadores? Uma parafernália infernal. Ah, e tudo dependia de eletricidade.
- Mesmo? Não acredito.
- Sim, senhora. Na era pré-neutrino, sem eletricidade nem a mais potente nave conseguia sair do chão.
- Ahhhh!
- Ei, você falou?
- Como?
- Sim, você falou, tenho certeza. Espere, vou retroceder o chip... Sim, você falou, abriu a boca e disse “ahhh”.
- Sério? Nem lembro mais da última vez que falei.
- Fale de novo, quero escutar. Espere, vou desligar o inibidor auditivo, pronto, pode falar.
- Gozado, não sei o que dizer...
- Que lindo! Sua voz é completamente diferente, suave, macia, nem parece você, quando fala.
- Jura? Fale você, agora.
- Está bem, pronto, estou falando, você está ouvindo?
- Fiquei arrepiada, como sua voz é bonita, grave, colorida.
- Silêncio, tem alguém chegando.
- Certo, mas sua voz é impressionante.
- A sua é maravilhosa.
- Obrigada. A gente podia...
- Sim, mas só quando estivermos sozinhos.
- Será que se as outras pessoas falarem, suas vozes também serão diferentes.
- Não sei, mas acho que cada um tem sua própria voz.
- Você sabe a razão de termos eliminado os sons, da nossa vida?
- Os médicos disseram que não aguentaríamos, que os sons são prejudiciais à saúde.
- Uma pena, achei tão bonito.
- É que antes de se tornar obrigatório, eles precisavam vender os chips.
- E inventaram...?
- Não sei, não sei. Depois continuamos a conversa, preciso descer.
- Eu também, mas vamos nos encontrar outra vez?
- Certamente, já gravei o número do seu acelerador de partículas.
- Que bom! Então, até.
- Até.
Paulo Wainberg