Kriptonita



Meu bem, meu mal.
No meu caso, é uma história que começa lá na infância, ao girar o botão do típico televisor da década de 80.
Vocês lembram? Bastava Clark Kent entrar em uma cabine telefônica e zás! Ele não era mais um homem comum, um tímido jornalista com óculos de grau e gravata...Era o Super-Homem, uma criatura invencível vinda do planeta Krypton para nos abençoar com seus poderes supremos e caridosa benevolência. E claro, tinha que ter um vilão: Lex Luthor, um careca franzino dotado de uma inteligência fora do comum. Lex não tardou a descobrir que o Super –Homem era vulnerável a um mineral raro chamado kryptonita.

Já He-Man (eu tenho a fooorça!!!) era do planeta Eternia, uma mistura de mundo medieval com tecnologia avançada. O vilão da história era ume esqueleto musculoso chamado...Esqueleto (?). E tudo o que maldito do Esqueleto queria era dominar o castelo de Grayskull. Aparentemente, isso daria para o ser esquelético o poder sobre todo o universo.

E os Smurfs, lembram? Simpáticas e doces criaturinhas azuis, avatares fofinhos que viviam em uma pacata vila. Ou quase pacata, porque também tinha um vilão perversamente perverso: Gargamel. É meu chapa, bastava olhar para Gargamel para ver que o bicho tinha sangue ruim. Sobrancelhas grossas, olhos constantemente enfezados e a missão de capturar cada um dos Smurfs e jogar num caldeirão de água fervente.

Só que daí você vai crescendo, as calças vão ficando curtas e você     passa pelo processo inevitável da “desfantilização”, que basicamente é deixar de ser criança. E se tem uma coisa que a vida te ensina, é que mocinhos e vilões não usam fantasias.

Para o Batman, as coisas sempre foram muito claras. Se acontece um crime horrível em Gothan City, a culpa deve ser do Coringa. Ou do Pinguim. Ele pega o bat-móvel e percorre os distritos de Gothan perseguindo um sujeito vestido de pinguim, não é complicado. Um camarada que se veste de pinguim não pode bater bem da cabeça.

Mas hoje, se você ligar a tevê, navegar pelos mares da teia cibernética ou tatear as laudas dos jornais, não verá nenhum pinguim discursando demagogicamente no nosso congresso. Os bons e os maus usam as mesmas roupas, tem os mesmos trejeitos, freqüentam as mesmas igrejas e lançam os mesmos sorrisos.

É a tal da falsidade, são as máscaras da sociedade. Vivemos uma época em que você não sabe mais em quem pode confiar. Os lobos em pele de cordeiro dividem os mesmos ambientes que você. Te abraçam, dão tapinhas nas costas e adoram proferir frases como “vai com Deus’. Os vilões contemporâneos (e reais) não são nem de longe tão sinceros quanto um Lex Luthor da vida, um Gargamel, um Pinguim, um Esqueleto!

Evidente que a vida também ensina que todos nós temos uma parcela de bondade e maldade dentro da gente. O que muda de uma pessoa para a outra é o quanto ela pode controlar isso e o que tem mais força na balança da alma, por assim dizer.
Por muito tempo, meu sonho foi viver em Gothan. Porque se eu cruzasse com alguém na rua que não estivesse vestido tal e qual um pinguim de enormes proporções...pronto! Bastaria para eu me convencer que meus caminhos só cruzam com os de pessoas de bem...pessoas que se respeitam e ainda acham que o mundo é um lugar bom e seguro. Um castelo de Grayskull.

Na boa? Falsidade é a minha kryptonita. 


Diego Gianni
(17/02/2012)
 
Copyright © 2011 Acontece Curitiba. Todos os direitos reservados. Desenvolvido por LinkWell.