Chatice



Esta é uma crônica chata, sobre um sujeito chato e sem um final legal. Pronto, falei.
Como descrever Floriano? Floriano é um cara tão chato que sua própria mãe nunca quis pegá-lo no colo. Floriano aprendeu a andar com dois meses de idade. E já começou a encher o saco.
Pouco se sabe sobre as razões que levaram Floriano a ser um sujeitinho tão desagradável. Alguns exagerados (ou não) poderiam supor que Floriano já nasceu chato, o que não é de todo descartável.
Floriano nasceu com uma deformação um tanto curiosa. Os dedos de seu pé direito nasceram grudados nas extremidades inferiores da sua genitália. Em outras palavras, Floriano já nasceu um pé no saco.
Antes mesmo de completar dois míseros aninhos de vida, o pobre Floriano foi submetido a trinta e tantas cirurgias para removerem seu pé das bolas. Pode ser isso que tornou Floriano um chato de galocha tão precocemente, ou talvez tudo isso seja lenda urbana e Floriano simplesmente sempre foi chato e ponto final.
No jardim de infância, era uma daquelas crianças estúpidas que ficam comendo cola. E tinta. E macarrão com cola. E não fazia isso por ser burro, era uma questão de ser chato mesmo. Ele sabia instintivamente que isso irritava a professora, e isso dava um certo tesãozinho nele.
Floriano não tinha amigos. Tinha vítimas. Até hoje, quando pega alguém pra Cristo, faz o que pode pra atazanar a pessoa. É sua meta de vida, o grande objetivo, sua missão espiritual.  Quando Floriano sente que agradou alguém sem querer, volta pra casa frustrado. Ele não se sente ele.
Floriano, é claro, é funcionário público. E é só por isso que nunca foi jogado para o olho da rua. Não se sabe se tiveram pena do Floriano, ou da própria rua.
Floriano é tão intragável que fez com que o padre da paróquia do bairro alterasse um pouco a linha de raciocínio dos intermináveis sermões – e também as perspectivas das suas próprias crenças -, porque depois de conhecer Floriano, o padre chegou à conclusão de que nem mesmo Jesus pode perdoar a todos.  
Floriano se diz assexuado. Mas é só uma desculpa, um resquício de orgulho. Floriano quis pagar por sua primeira noite de “amor”, mas não teve Madalena que o aguentasse.
Ainda assim, ao melhor estilo do “falem bem, falem mal, mas falem de mim”, Floriano se tornou um camarada conhecido na comunidade de Ribeirinha. Claro. Não havia quem não soubesse quem era o porre do Floriano, certamente o cara mais chato que a humanidade já hospedou. E o pior é que o filho da mãe se orgulha disso. E se orgulha porque sabe que é chato.
Coisa de algumas semanas atrás, correu pela cidade de Ribeirinha a notícia de que tinham “encomendado” a morte de Floriano. Por incrível que pareça, o perrengue envolvia mulher, uma senhora de nome Margareth - recém diagnosticada na qualidade de “masoquista ao cubo” -, que (diziam as más línguas) corneava o esposo arrastando Floriano pra cama. O esposo descobriu por meio de um bilhete secreto (escrito, pasmem, pelo próprio Floriano, que escreveu só pra encher o saco).
Enfim, numa noite aí de semanas atrás, durante a madrugada ouviu-se um estardalhaço no casebre de Floriano. Batidas furiosas na porta, som de pratos quebrando, blá blá blá, um furdunço pra barraqueiro nenhum enfiar defeito.    
Nem bem o sol raiou e um bando de curiosos marchou rumo à residência do Floriano. Dezenas de pessoas em frente à porta, aguardando as “otoridades” chegarem. Quando chegaram, adentraram a porta arrombada e vasculharam o local. Um repórter local ali estava, prontinho para enviar para a redação dados condizentes ao obituário mais feliz de todos os tempos (bate na boca, sinal da cruz, que Deus me perdoe). 
Mas não foi bem assim.
E como desgraça sempre recebe mais espaço nos jornais, horas depois lá estava o destaque na primeira página que causou uma comoção geral.: “Floriano é encontrado vivo em seu apartamento”.
Pra você ver como são as coisas.

Diego Gianni
(14/02/2012)
 
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