
Vestiu sua saia de flanela e saiu de casa. Na rua, um ou outro poderia observar que saia e blusa tinham cores escandalosamente distintas. Pouco lhe importava.
Sentia-se bem com esta roupa, assim como havia aceitado com a maior naturalidade possível as primeiras rugas indisfarçáveis a cruzarem sua face, linhas cruéis de uma guerra inútil contra o tempo.
Era leonina, mas ascendente com sabe-lá-Deus-o que que a tornava uma pessoa serena.Durante toda a vida, havia ido para a cama com apenas um homem, que os céus o guardem. Sexo era bom, mas nojento.
Dizia isso para si mesma, a mentira lhe dava uma falsa sensação de que todas as suas tristezas eram escolhas suas.Filhos, não tinha. Preferia dividir o amor dos animais. A última de suas cadelas, quando se foi, quase a levou junta, tamanha a sua dor. Lembrou disso ao ver na esquina do mercadinho um vira-lata implorando por carinho ou comida (talvez seja impossível separar as duas coisas).Dentro do mercado, deu-se ao luxo de incluir na cestinha um vinho meio vagabundo e uma bandejinha de pernil já fatiado. Tanto requinte valia a pena.
Esta noite, não jantaria sozinha.
Voltou pra casa e percebeu que não podia mais adiar a faxina. Nunca quis ser dona de casa. Seu sonho de juventude era viajar o mundo.
Isso, mal fez pelos postais.Na parede, um retrato desbotado dos pais parecia lhe observar escondendo a sujeira sob o tapete. Seus pais, casados por mais de tantas décadas, separados pela morte em comum designada por Deus e um caminhão na direção contrária.A idéia de dividir a mesma cama com uma pessoa a vida inteira lhe dava uma sensação ambígua. Alívio de não ter passado por isso, temor de saber que já não tinha uma vida inteira.Faltam duas horas.
É tempo de ir tomar banho, prender o cabelo que nunca deixou de ser excessivamente crespo e talvez se maquiar. Um pouco mais bonita ficaria. Paciência. Milagre, não dava pra fazer.A campainha toca. Ela abre a porta e sorri para ele. Ele dá o mesmo sorriso, que mais parece uma careta de quem pede desculpas por existir.Eles jantam, e entre garfadas e taças que amanhã trarão ressaca a ambos, falam de um passado que parece muito melhor do que realmente foi.Acomodados no sofá, como se fossem adolescentes que temem ser surpreendidos pelo pai da garota, conversam mais um pouco, ele ensaia um beijo que não vem.
Ela não recusaria.É tarde e ele se levanta para ir embora. Ele era casado. Ela gostava da solidão.
Olhou pelo olho mágico da porta a tempo de ver ele deixar o corredor do apartamento. Nunca mais o veria.Voltou para o quarto e espiou os lençóis desarrumados. Pelo ar, um cheiro de pecado. Esta noite dormiria na sala, pegaria no sono assistindo um filme recém alugado. Filme bobo de amor, aquela coisa toda. Não prestou atenção em quase nada.
Reveu em sua mente, quantas vezes desejou, as últimas horas.Pegou no sono e acordou com o barulho da fita chegando ao final. Ficaria sem saber se o casal ficou ou não juntos, a menos que rebobinasse a fita. Mas isso ela nunca fazia. Era preferível pagar a multa da locadora. Um preço que sempre esteve disposta a pagar.Não voltava atrás por nada deste mundo.
Diego Gianni