Intimidade



Lopes chegou em casa branco como vela. Pálido feito vampiro com síndrome de pânico. Apreensiva, a esposa fez a pergunta de praxe: 

- Meu Deus, Lopes, quem morreu? 

Lopes encarou seriamente a esposa. Tentou balbuciar uma resposta por duas vezes, sem sucesso. Respirou fundo. Enxugou o suor frio da testa.  Por fim, estufou o peito e respondeu como se estivesse sendo assistido por uma platéia de trocentas pessoas:

- A dignidade, Rita. A dignidade morreu. 

- Como assim? Onde você estava?

- Eu te disse. Fui visitar meu pai. - Mas ele está bem?

Lopes soltou uma risada seca. Sarcástica. Fez um gesto assim com a mão, do tipo “você não imagina o quanto”. 

- Está mais forte do que nunca. 

- E isso não é bom? Seu pai vive sozinho naquela casa há anos, desde que a Martha faleceu.

- É. Martha. Minha mãe. Minha querida mãezinha, que neste exato momento está se revirando tanto na cova que deve estar parecendo o pião da casa própria.

 - Por quê? 

Lopes sentou – desabou, seria a palavra certa – no sofá. Deu tapinhas ritmados na própria nuca, como quem quer despertar de um pesadelo.  - Rita, me traz uma cerveja. 

- Mas o que foi que acont...

- Uma cerveja, Rita! Por favor. 

Só após alguns minutos, ante o olhar curioso da mulher, foi que Lopes desabafou - mais para ele mesmo do que para a esposa.  

- Meu pai não tem mais jeito. 

- O que foi que ele fez?

- Eu disse que o melhor pra ele era ir pra uma casa de repouso. Eu disse! Mas ele não me ouviu. Ninguém da família ficou do meu lado. E agora isso. A dignidade está morta e sepultada. É isso. Podem jogar uma coroa de flores sobre os restos pútridos da dignidade, porque ela...- Lopes! Eu vou ter um surto!

Me diz o que aconteceu antes que eu...

- Peguei meu pai se masturbando. 

Rita olhou perplexa para o marido. Não teve muita certeza de ter ouvido o que ouviu. Fez uma careta só com o lábio, coisa assim de um fragmento de risinho tentando escapar. 

- Come quié? 

Lopes saltou do sofá repentinamente, andou em círculos pela sala, tapinhas e mais tapinhas na nuca, as imagens se repetindo em sua mente, o desespero, a vergonha, o fim dos tempos. 

- Foi horrível, Rita! Horrível! Eu...eu não toquei a campainha, sabe? – disse para a esposa sorrindo, tentando se justificar. – Eu tenho a chave, qual era o grande problema? Eu queria fazer uma surpresa, Rita! Aparecer assim, de surpresa. Achei que fosse encontrar o velho cochilando em frente à tevê. Oh, como eu fui inocente!

- Lopes...Eu...eu entrei na sala e chamei por ele.

“Pai? Pai? O senhor está aí?”. Então subi as escadas, Rita. Subi as escadas e andei em direção ao quarto...

- Lopes...eu não quero ouvir... – murmurou a esposa de voz sofrida, tapando os ouvidos.

 - Entrei no quarto e lá estava ele! Feito uma perereca esticada na cama! E ele estava se masturbando! Eu juro que estava!

- Chega, Lopes! – berrou Rita. – Eu não quero mais ouvir!

Marido e esposa se abraçam, aos prantos. Um dá tabefes na nuca do outro (paf, paf, paf), se olham com lamúria nos olhos. Ela pergunta, com receio:

- E agora? O que vamos fazer?

Rita tratou de preparar um café bem forte, coisa que nunca fazia a noite porque Lopes sempre teve problema de insônia. Era à exceção da regra. Ficaram os dois na mesa de jantar, bebericando o café gole a gole, ambos perdidos em pensamentos e conjecturas. Após horas de um silêncio meditativo, Lopes deu um soco na mesa e sentenciou: 

- Vamos ter que internar o velho.

 - Meu bem... – começou a esposa, sem ter certeza que era mesmo contra a ideia. – Não é uma decisão muito forte? 

- Eu vou te dizer o que é forte, Rita. É testemunhar um senhor de oitenta e quatro anos depenando o próprio ganso. Isso é forte. Essa imagem eu vou levar pro túmulo. 

- Ele não vai aceitar nunca ir para um asilo... - Uma casa de repouso.

E não tem que aceitar nada! – outro soco na mesa.

– Meu pai está louco. E com bêbado e com louco a gente não discute. Meu pai me ensinou isso.  -

Mas...

- Não discute, Rita! Eu gostaria que meu filho fizesse o mesmo por mim. 

Breve pausa, Rita volta a chorar. Olha para o marido com admiração. 

- Você está certo. 

Se abraçam novamente, aos prantos (paf, paf, paf e paf). 

Dias depois, Abelardo ainda está tentando entender o que aconteceu. Jogado ali como um pano de chão, jogado naquela casa de paredes e roupas brancas cheia de pessoas com rugas como as dele. Se não é louco e nem criminoso, que crime teria cometido para ser escorraçado para um asilo sem direito a defesa? Envelhecer? É, por suposto, era esse seu delito. Logo ele, digno de vender saúde, preso naquele mar de tédio. Seu único consolo em estar ali era Gabriela, uma enfermeira muito da bonitinha que gostava de falar para Abelardo toda vez que passava por ele:

- Aposto que o senhor foi um pão quando jovem. 

- Ah, se eu fosse uns trinta anos mais jovem...  

 Ela ri, os dentes brancos como a roupa, e se afasta rebolando. O Abelardo só de olho, pensa em voz alta: “eu já gostei muito disso...”.  Um enfermeiro assiste a cena, não gosta do assanhamento do velho, pega o interfone e diz com voz seca:

- Me traz dois miligramas de rivotril.

E daí é questão de minutos para Abelardo, como convém a um idoso, ficar psicoticamente calminho diante do televisor. Sete outras samambaias velhas dividem a sala de estar com ele. Do outro lado da cidade, Lopes e Rita jantam em paz. Sensação boa de chuva depois de um dia de calor, leveza nos ombros, as mentes limpas, os corpos frescos, as nucas geladas.  

Diego Gianni(07/02/2012)

 
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