Como NÃO escrever uma notícia‏



No jornalismo impresso periódico (também chamado de “convencional”), é comum que as notícias sejam escritas de forma, concisa, prática, objetiva. Isso corresponde à demanda de um mundo em que às 24 horas do dia se tornaram curtas, de um público que deseja saber “o que se passa no cotidiano”, porém, sem muito “lero - lero” - porque o tempo urge, e tempo é dinheiro. Ok?
Esses textos jornalísticos obedecem a algo que conhecemos como lead. O lead abre a notícia e resume o fato principal respondendo as seguintes perguntas: “Quem? Quê? Quando? Onde? Por quê? Como?” (eu ainda incluiria o “acuma?”.).
Portanto, se a dona Conceição acabou de ter sua bolsa roubada (com o dinheirinho da aposentadoria dentro, pobrezinha!), um texto escrito nos moldes do lead seria mais ou menos assim:


Aposentada é roubada na esquina de casa

Dona Conceição (74 anos) teve sua aposentadoria roubada nesta terça feira. O roubo aconteceu próximo a uma agência Bradesco. Quando a aposentada estava na esquina de casa, um homem guiando uma bicicleta arrancou a bolsa das suas mãos. A suspeita é de que o ladrão seja um conhecido rapaz do bairro que costuma “rondar” a agência bancária e já assaltou outros moradores da vizinhança.


O lead é útil em notícias assim. Descreve rapidamente o que aconteceu e ponto final. Imaginar como seria uma notícia dessas (tão banal e rotineira, infelizmente) descrita de maneira exageradamente literária é o que me leva a crônica de hoje.

Como NÃO escrever uma notícia
Diego Gianni

Triste fim de Conceição Quaresma

Dona Conceição Rosalina Quaresma Pinto, filha de Gusmão Vieira Pinto e Ruth Ferdinanda Quaresma - Quaresma por parte de mãe e Pinto por parte de pai - de setenta e quatro anos, parida no dia vinte e nove de março de 1.938, às duas horas da manhã, na cidade de Pau dos Ferros, passou por maus bocados nesta infausta terça feira.
Quando dona Conceição despertou no dia de hoje, provavelmente ao som das andorinhas e arapongas que cercam seu quintal rodeado de jequitibás, mal poderia supor que tamanho infortúnio iria ocorrer em sua pacata vida.
A manhã de Conceição começou como todas as manhãs, cada um de seus passos e gestos metodicamente obedecendo a uma rotina impecável de: calçar os chinelos de veludo cor de anis, trajar o roupão ornamental desenhado com bromélias (costurado por freiras belgas idosas refugiadas de Marrocos), encaminhar-se rumo ao lavabo, tratar de sua higiene pessoal e dirigir-se até a cozinha para cozinhar (e posteriormente degustar) três saborosas e deliciosas panquecas feitas com um copo de leite, um ovo, um copo de farinha de trigo, uma colher de sopa de óleo e uma pitada de sal.   
Curiosamente, na noite da qual despertara há pouco, Conceição viu-se cingida de sonhos confusos e aparentemente desconexos de qualquer fragmento da realidade, sonhos que diziam respeito a uma raposa furtando ovos de um galinheiro, supondo que a utópica raposa (um mamífero onívoro) pudesse ter alguma predileção por tais ovos. Dir-se-ia Freud que os sonhos refletem medos e desejos oriundos do subconsciente, id, ego, superego, posto que pode-se assim supor que a mente de dona Conceição foi acometida daquilo que os menos céticos denominar-se-iam de “premonição”.
Pois bem. Após digerir as três panquecas, Conceição alimentou seu gato siamês (cujo nome é “senhor Conhaque”) e resolveu dar um telefonema para sua prima Margot, residente em Sorocaba. A conversa entre as duas senhoras levou trinta e sete minutos e quarenta e oito segundos. Conceição e Margot conversaram sobre amenidades (dor no joanete, a receita de um empadão de camarão, o capítulo de ontem da novela das vinte e uma horas, enfim, em suma, para resumir, nada de extraordinário que mereça ser aqui transcrito, exceto, talvez, que Conceição também comentou com Margot que “tinha que desligar porque estava de saída para ir ao banco sacar o minguado dinheiro da aposentadoria”).  
Indo em direção ao banco, no caso uma agência Bradesco, o segundo maior banco privado do Brasil, fundado em 1.943 na cidade de Marília (interior de São Paulo), dona Conceição não pode deixar de reparar na quantidade de prédios em construção que por ali havia. Mais do que isso, reparou na poluição sonora que o barulho das obras causava em seus sensíveis tímpanos, fato que deixou dona Conceição um tanto irritada em ter colocado os pés para fora de casa (não que ela padecesse de agorafobia ou estivesse em algum grau da síndrome do pânico; não, longe disso!).
De tão enfastiada e macambúzia estava Conceição ao adentrar na agência bancária, demorou para conseguir alcançar o objetivo de digitar corretamente e precisamente os seis dígitos de sua senha necessários para sacar seu dinheiro. Sem contar que antes teve que esperar na fila por quarenta minutos, mesmo sendo uma fila preferencial (nove pessoas idosas estavam à frente de dona Conceição, dentre elas Roberval, um senhor de noventa e cinco anos que partiu de Amsterdã aos cinco anos de idade e trabalhou toda a vida como oleiro). 
Ao deixar a agência, é importante descrever, dona Conceição teve uma daquelas epifanias que acometem os mortais vez ou outra, na juventude ou maturidade, infância ou velhice. Pôs-se ela a pensar na finitude da vida, que nada mais é do que o fenecer da própria, pensamento abstrato mais do que natural para uma senhora de setenta e quatro anos. Posto que os pensamentos tendem a se manifestar tal e qual uma “teia de aranha” (alegoricamente falando, evidentemente), dona Conceição embaralhou seus pensamentos metafísicos com a receita do empadão de camarão conversada brevemente no telefone com sua prima Margot de Sorocaba, ligação descrita há quatro parágrafos, ligação esta que, como mencionado, demorou trinta e sete minutos, quarenta e oito segundos e nem um segundo a mais. E com isso, Conceição lembrou que saiu de casa e esqueceu o gás ligado. A perspectiva de que seu gato pudesse estar morto por asfixia, somada a poluição sonora decorrente das obras situadas no perímetro, fez com que dona Conceição chegasse à conclusão de que o dia estava uma droga e seria melhor não ter saído de casa - dias em que tudo aparenta dar errado, o universo conspira contra e as coisas não poderiam ser piores.
Oh, ingratidão, que ledo engano, que lástima! Ainda em frente à agência, dona Conceição teve sua bolsa roubada por um gatuno, um salafrário, um sacripantas supostamente conhecido dos habitantes do condado.
A quem interessar, “senhor Conhaque” está firme, forte, faceiro e pronto pra outra.


Diego Gianni
(30/01/2012)
 
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