Nós que aqui estamos



Foi no interior de São Paulo
Na entrada de um cemitério
Que li uma frase
Envolta em mistério
Nós que aqui estamos
Por vós esperamos
Quem escreveu estava vivo
Não sei se está mais
Não sei se tirou de um livro
Nem sei se descansa em paz
Sentei-me ali por horas
Nessa minha estranha viagem
Do anoitecer até a aurora
Ouvi os mortos sussurrarem
Nós que aqui estamos
Por vós esperamos
Vinha de cada boca
De cada cova
De cada alcova
Saía à trova
Por vós esperamos
Seu João Ribeiro
Adorava feijão com arroz
Morreu num mês de janeiro
Mil novecentos e quarenta e dois
Nós que aqui estamos
Analice e Ivonete
Mãe e filha sepultadas
Bronquite; barranco na estrada
Mil novecentos e noventa e sete
Nós que aqui estamos
João Augusto dos Santos
Este chocou a cidade
Mal nasceu, partiu com os anjos
Aos sete meses de idade
Por vós esperamos
Pedro Carindó
Fama de ruim
Batia na esposa
E mesmo assim
Dizem que ela chora por ele
Nós, Nós, Nós, Nós, Nós, Nós, Nós...
Para onde olho, em cada lápide
Alguém que daqui fez parte
Seus olhos estão fechados
Não contemplam a paisagem
Do lado de cá do muro
Pensativo e taciturno
Ouço os mortos sussurrarem
Por dias, meses, anos
Nós que aqui estamos
Por vós esperamos

Diego Gianni
(26/01/2012)
 
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