Avesso




Na noite gelada, mamãe monstro despertou com os berros do bebê monstro. Rastejou-se ela pelo assoalho rumo escadaria abaixo, colou o corpo gosmento no do filho e perguntou cheia de comiseração:

- Que você tem, monstrinho?
- Tem uma criança encima da minha camaaaaa! – choramingou o bebê monstro. 
- Ah, bebê. Já não conversamos sobre isso?
- Sim, mamãe.
- Ontem a noite mesmo. O que foi que a mamãe te disse?
- Que crianças não existem.
- Isso mesmo, bebê. São apenas histórias que contamos para os monstrinhos.
- Mas eu tenho medo, mamãe, eu vivo de medo!
- Mas monstrinho, horror da minha morte...medo de quê?
- Das crianças!
- Crianças não existem, bebê. Você já está bem crescidinho.
- Eu ouvi uma criança encima da minha cama! Eu juro! O estrado ficou tremendo! A criança estava pulando, mamãe! Juro pelo diabo!
- Bebê, não diga o nome do diabo em vão.
- Desculpa, mamãe.
- Olha só. A mamãe vai olhar se a criança está encima da sua cama. Você quer isso?

Envergonhado, o monstrinho fez que sim com a cabeçorra. Mamãe monstro olhou e é claro que nada tinha ali, porque crianças de fato não existem.

- Está vendo, bebê? Foi só sua imaginação.
- Snif...snif...(choramingos) Mamãe, me faz um leite coalhado e azedo? Estou sem azia.
- Ai, ai. Já está tarde, meu demoniozinho. 
- E será que você...snif...snif...me traz um biscoito?
- Filhote, também já falamos sobre isso. Você ainda não está na idade de comer biscoitos.
- Eu já sou crescidinho...
- Mas ainda não tem nenhum dente na boca.
- E quando meus dentinhos vão nascer?
- Tenha um pouco de paciência, bebê. Lembra o que a mamãe contou sobre a fada dos dentes?
- Sim, sim! No dia em que eu matar minha primeira fada dos dentes, coloco a cabeça dela debaixo do travesseiro e no dia seguinte nasce um dentinho na minha boca.
- Isso mesmo, monstrinho feio da mamãe. Com o tempo você vai arrancar a cabeça de trinta e seis fadas do dente.
- Não vejo a hora, mamãe.
- E por falar em hora, já passou da hora de dormir. Você vai ficar mauzinho?
- Sim, mamãe.
- Então tudo bem. (lambe a testa do filho) Tenha amargos pesadelos, bebê. Mamãe te odeia.
- Eu também, mamãe.

A mãe afaga os chifres do filho, morde carinhosamente um pedaço da bochecha dele, cospe para o lado e deixa o quarto. Bebê monstro custa a pegar no sono, seus olhos abertos e vigilantes estão focados no estrado da cama.
Lá fora, de forma horripilantemente açucarada, o vento assovia Can't Smile Without You, de Barry Manilow. O monstro cobre os olhos com o lençol. Treme de medo e pragueja para que amanheça logo. Mas a noite não facilita.
A noite é uma criança.

Diego Gianni
(21/01/2012)


Nota do autor - Para ouvir durante a leitura desta crônica:
http://www.youtube.com/watch?v=Qoi25XRDeeo
 
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