Vó Lucélia



- Vó, me conta uma história?

É assim que começa a história, é assim que terminam as noites. A avó arrasta a cadeira para perto da cama da menina e conta uma história que é quase sempre à mesma. Acrescenta uma ou outra coisa e assim são feitas às fábulas.
A menina não tarda a pegar no sono. A voz da avó é chata, lenta, monótona, apagada, um toque de rouquidão que nela não cai bem.
A avó divide o quarto com a neta. Mora de favor na casa da filha e do genro. Sente-se um encosto, apesar de nunca ter ouvido a menor menção por parte dos parentes. Mas é inevitável. Lucélia envelheceu a ponto de não poder mais ficar sozinha. Depende de todos para quase tudo. Por dentro, sente vergonha e nem sabe do quê. Sabe apenas que não merecia sentir vergonha e que tal sensação beira ao ridículo. Todos envelhecem, mais tarde ou mais tarde. Lucélia envelheceu.
Quando chega a vez de Lucélia se deitar, ela fecha os olhos e faz uma prece pela família. Pede a Deus que proteja os filhos, os netos, faz sempre à mesma prece. Acrescenta uma ou outra coisa, e é assim mesmo que perduram as preces.
Lucélia demora a pegar no sono. Às vezes sente vontade de ir até a cozinha, preparar um café, fritar uma lingüiça, ligar a tevê, ver o que está se passando no mundo.
Lucélia nada faz. Não quer incomodar.
Permanece com as pálpebras fechadas e fica pensando na vida. Lucélia tem uma memória tão boa que não saberia dizer se é dádiva ou maldição. Horas se passam sem que ela pegue no sono e ela fica ali, deitada, imóvel, lembrando da infância, da adolescência, de tudo o que pode. O pensamento corre solto, as lembranças se confundem com o imaginário, Lucélia às vezes fica na dúvida do que aconteceu ou não.  
Mas Lucélia não sonha mais com o passado. Em seus sonhos, ela também é velha. Ouve sua própria voz, seca e áspera, imersa em sonhos nublados. Sonha com todas as pessoas que eram de seu convívio e já partiram há muito tempo. Essas pessoas aparecem jovens, mas Lucélia permanece velha. A vó Lucélia.
São escassas as fotografias da juventude, e nenhuma delas faz jus à beleza que Lucélia tinha. Uma beleza exótica que faria seus netos marmanjos suspirarem se a vissem passando pela rua em um túnel do tempo. Eles sequer acreditariam que aquela ali, aquela “gostosa” - pejorativamente falando - é a vó Lucélia. Um pedaço de mau caminho.
Quando se olha no espelho, Lucélia costuma fazer uma careta para a senhora a sua frente. É um ato de reflexo. É um clichê ambulante. Como a vida passa rápido.
No banho, Lucélia aperta os seios com força. Esfrega o corpo com a esponja, fecha os olhos, passa a mão pelas coxas, brinca de fingir que ainda é moça. Mas isso ninguém sabe, nem a filha, nem a neta, nem Deus. Ainda assim, faz o sinal da cruz. Nove vezes.
Lucélia desliga o chuveiro, passa lentamente a toalha pelo corpo manchado. Torce o nariz ao olhar para as manchas. Tira os chinelos, seca os pés, calça os chinelos, anda com cuidado para não escorregar e quebrar a bacia. Vai até o espelho, faz careta, odeia o espelho, destruidor de fantasias. Seca o cabelo, penteia, veste o roupão, sai do banheiro, a neta está parada na porta.
A avó olha bem para os olhos da menina. Com a mão manchada e cadavérica, faz um afago na cabeça da criança.

- Vó, fiz um desenho pra senhora.

A avó sorri. Curva-se com dificuldade, beija a neta com força na bochecha. Não é mais Lucélia.

- Mãe, o almoço está pronto! – a filha grita da cozinha.
- Estou sem fome, filha...
- Mãe, a senhora precisa se alimentar!

A criança segura a mão da avó. Juntas, vão andando até a cozinha. Passo a passo. Devargazinho. A neta é um amor. A neta tem paciência com sua avó.
Não é mais Lucélia.


Diego Gianni
(16/01/2012)
 
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