A marcha

 

Começou com Adão e Eva, e olha que eu nem acredito em contos de fadas. Você sabe, aquela história do pecado original. Eva ofereceu a maçã pra Adão, que inocentemente, aceitou. Foi o princípio do fim. Uma vez degustado o fruto proibido, abriram-se as porteiras do inferno. Adão nem sequer estava devendo quatorze meses de aluguel quando Deus, o Grande Senhor Barriga do Universo, expulsou o casalzinho de sua celestial propriedade. E a culpa foi da Eva.

No decorrer da história da humanidade, as mulheres sempre pagaram o pato (pato caçado pelos homens enquanto elas ficavam em casa cuidando da prole, que fique bem claro). Não importa o lugar, não importa a cultura, em algum momento da história o único direito que coube as mulheres foi o de ficarem caladas.

Foi pensando em tudo isso que acompanhei, há alguns meses, a marcha das vadias aqui em Curitiba. Esse movimento começou em abril de 2011 (Toronto, Canadá) e o protesto é o seguinte: mulheres estupradas por usarem roupas provocantes NÃO são culpadas!

Muitas pessoas, dentre as quais me incluo, interpretaram mal a verdadeira mensagem da marcha. Convenhamos que o nome (marcha das vadias, vadias!) não ajuda – quem dirá as senhoras mais conservadoras, que pasmem, conseguem ser ainda mais machistas que os homens. Mas depois de analisar bem todo o contexto (eis um termo irritantemente acadêmico), conclui que marcha das vadias é um nome que cai como um sutiã. 

Cabe aqui repetir a mensagem que reflete a indignação mais do que justa de grande parte das mulheres: mulheres estupradas por usarem roupas provocantes não são culpadas. Não são. Sem mais, meritíssimo.

Não parece uma coisa óbvia? Tem como discordar disso? É como usar aquelas camisetas com frases do tipo: “sou contra o câncer de mama”. Alguém é a favor do câncer?

Marchas desse tipo, por mais que estejam “gritando o óbvio”, são de extrema importância. O mundo é como é porque as pessoas se recusam a respeitar o que deveria ser evidente. As mulheres sofreram muito. A história é contada pelos homens, e convenhamos, as coisas poderiam ter sido melhores.

Mulheres queimadas na fogueira. Bruxas. Feministas tendo que gritar por direitos iguais. O mito do sexo frágil. Rapaz, temos uma dívida monstruosa com as mulheres.

Bom, com o tempo as coisas vão melhorando. Temos até uma presidentA! Uma baixinha invocada que venceu um câncer (supostamente ela também era contra) e comanda um país que não é fácil de ser comandado. E não é fácil porque, no Brasil, tudo que é degradante costuma se esconder atrás de uma cortina chamada hipocrisia. O racismo. A discriminação. A homofobia. A xenofobia. E o machismo, é claro – que não compete somente aos homens.

Mulheres, continuem avançando. Vocês conseguem dar um jeito neste mundo. Porque nós, francamente, empacamos. Nunca tivemos que organizar nenhuma marcha para lutar por nossos direitos de mandar no mundo, achávamos que o mundo era nosso por direito. A vocês, coube lavar a louça. Agora, as coisas mudaram. A força de vocês está fazendo jus ao tabuleiro de xadrez, onde a peça principal é o rei, mas a rainha é a peça mais forte. E ponto final.

Ah sim, finalizo com um utópico bilhetinho para um velho amigo:

Querido Sig

Você ainda acha que as mulheres têm inveja do pênis?

Com amor

Diego

 
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