Tom e os flocos de neve



De repente, Tom se sentiu uma fotocópia ambulante. Como se uma paradoxal luz vinda das trevas despontasse sobre sua auréola e jogasse em sua cara as mais duras verdades: “Tom, você não tem nada de original”.

Tom se olhou no espelhou.

Quantas pessoas no mundo não teriam as mesmas sobrancelhas? Os mesmos olhos? A mesma careta que surge dentre as covinhas com um sorriso de canto de boca?

Tom descobriu o que não deveria ser descoberto e nem tocado. Que seu próprio pensamento não passava da cópia de outros pensamentos, gente que até morreu por ousar pensar. As frases mais profundas de Tom sempre foram meros reflexos de citações de terceiros. As palavras mais reflexivas que saíam de sua boca ocupavam 50% do som que ele proferia em um dia, e essas palavras não eram deles. As outras, estas sim ditas como suas, eram banalidades. E banalidades tampouco são originais.


Logo ele, logo Tom, que costumava ouvir dos seus chegados: “Tom, meu velho, você é uma figura ímpar”. E Tom se achava um verdadeiro floco de neve, porque tem toda aquela história de que nenhum floco de neve é exatamente igual ao outro. Seria então uma mentira?
Como seria possível que dentre quadrilhões e zilhões de flocos de neves um não fosse igualzinho o outro? Ademais, quem poderia ter certeza de algo assim? De todas as profissões que existem no universo, nunca se soube de uma que fosse a de contar e analisar os flocos de neve.


Tom se convenceu da igualdade dos flocos, e em virtude disso, passou a descrer que era especial. Ímpar. Único. Era só um boneco de neve moldado com referências culturais, sociais e familiares. Bonecos de neve se desmancham mais cedo ou mais tarde, porque a vida não é eterna, mas é um longo inverno.


E ao pensar sobre tudo isso, Tom se entristeceu mais ainda. Sabia que em algum lugar da Terra alguém estava pensando as mesmas coisas. Que os mortos, que já foram vivos e caminharam pelas mesmas terras, pensaram as mesmas coisas. E todos esperavam e esperam alguma revelação divina, algum momento chave, alguma luz que venha lá de cima e faça com que você se sinta um predestinado.


A verdade é que a tristeza também passa e logo Tom vai se animar. Vai se convencer que cada um é especial a sua maneira. Que pouquíssimos deixam pegadas tão profundas na neve a ponto de serem seguidas por milênios, mas que também existe algo em comum que une a todos nós, os que somos e os que foram: vivemos e estivemos aqui, neste pedaço de terra cercada por água, neste planeta que chamamos carinhosamente de lar. O único lar que conhecemos.


Mas por enquanto o coração de Tom segue gelado, a pele fria, a alma vazia, consumado pelos nossos megalomaníacos desejos de deixarmos rastros, e não apenas humildes e solitárias impressões digitais.

Diego Gianni
(21/02/2012)
 


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