"Lá vem o negão"

Prosseguindo meu delicado trabalho de analisar algumas de nossas mais clássicas e retumbantes músicas (muitas entraram para os anais da história da arte do Brasil, quiçá do mundo)

, exponho aqui para mentes intelectuais uma das letras que adentraram a vanguarda do bom gosto:

Lá vem o negão.

Esta letra é um vasto manancial de cultura, quem me dera saborear apenas uma colher de tanto brilhantismo perpetuado na mente de quem escreveu estas linhas.

Íei-las:

Lá vem o negão

La vem o negão
Cheio de paixão
Te catá, te catá, te catá
Querendo ganhar todas menininhas
Nem corôa ele perdoa não
Fungou no cangote
da linda morena
Te catá, te catá, te catá
Loirinha com a fungada do negão
É um problema
Loirinha com a fungada do negão
É um problema

Se ninguém soube lhe amar
Pode se preparar chegou a salvação
Só alegria, pode se arrumar
Que chegou o negão

Mas se é compromissada
É melhor não vacilar
Basta um sorriso no olhar
Para o negão te catar

Vem negão, vem depressa
É o mulherio a gritar
Vem negão, a hora é essa
Vamos deitar e rolar
Na praia, na rua, no supermercado
Na feira é a maior curtição
As garotinhas já vem requebrando
Pra ficar com esse negão

Por mais pretensioso que possa ser eu tentar compreender a gigantesca fonte de ensinamentos contidos nesta letra, logo eu, pobrezinho de mim, um pequeno asno se comparado ao cérebro que teceu este punhado de genialidade, me arrisco a assim fazer, e com isso, quem sabe, um dia conseguir escrever algo parecido, se não tão brilhante, ao menos análogo em bom gosto.

Vou analisar de pouco em pouco, para não correr o risco de sobrecarregar meu escasso cerebelo:

“Lá vem o negão
Cheio de paixão”.

Resumindo, trata-se de alguém (supostamente o autor da letra) avistando ao longe um rapaz afro descendente de grande estatura se aproximar e notando que há nele toda uma aurora de sentimentos.

“Te catá, te catá, te cata”.

Com esta junção maravilhosa do verbo “catar” (sinônimo de pegar, apanhar, recolher), dá-se a entender que o rapaz afro descendente deseja com intensidade acariciar alguém.

Ele já avisou. Ele quer catar.

“Querendo ganhar todas menininhas
Nem corôa ele perdoa não”.

Não se trata de pedofilia (espero eu) ou golpe do baú. Uma vez que já analisamos e concretizamos o fato do rapaz afro descendente da música em questão ser repleto de fortes sentimentos em prol do sexo oposto, a questão da idade para ele tem a mesma importância que um saquinho de amendoim pode ter para um pingüim.

“Fungou no cangote
da linda morena
Te catá, te catá, te catá
Loirinha com a fungada do negão
É um problema
Loirinha com a fungada do negão
É um problema”.

Com certeza, é um problema dos mais circunspectos. Uma mulher loira que recebe uma fungada de um rapaz afro descendente tem todo o direito de se sentir incomodada. Por mais que o rapaz pret...afro descendente tenha as melhores intenções do mundo, você só pode dar uma fungada em alguém quando a intimidade já alcançou seu âmago. Tudo tem um limite, né?

Mas devo confessar que não consegui entender toda a simbologia deste verso...

Se o rapaz afro descendente fungou no cangote da linda morena, por que a moça loira é que ficou chateada?

“Se ninguém soube lhe amar
Pode se preparar chegou a salvação
Só alegria, pode se arrumar
Que chegou o negão “.

A solidão é um negócio muito triste. Demais. Algumas pessoas passam a vida inteira sem se sentirem amadas. Mas existe uma salvação, segundo o verso referido. Uma solução que trará alegria, júblilo, felicidade (!) a vida da pessoa.

O negão.

“Mas se é compromissada
É melhor não vacilar
Basta um sorriso no olhar
Para o negão te catar”.

Aqui o tema “traição” é abreviado de maneira ímpar. Um pequeno lembrete a suma importância da fidelidade conjugal nos dias de hoje, sobretudo.

As vezes um simples sorriso já é um convite ao pecado.

“Vem negão, vem depressa
É o mulherio a gritar
Vem negão, a hora é essa
Vamos deitar e rolar”.

Neste momento, pelo que pude perceber, se instala no ambiente um caos total, um verdadeiro inferno de Dante. A medida que o rapaz afro descendente aumenta a velocidade dos seus passos, a histeria toma conta das mulheres. O rapaz afro descendente se anima, pois sabe que a hora é essa.

Ele está com a faca e o queijo na mão.

“Na praia, na rua, no supermercado
Na feira é a maior curtição
As garotinhas já vem requebrando
Pra ficar com esse negão”.

Neste verso final, vemos que independe o cenário da situação. Uma praia, um supermercado, não importa. O que importa é a sensação que o rapaz afro descendente causa nas mulheres, estejam elas onde estiverem. Se elas estiverem no meio da feira comendo pastel com a japonesa da Kombi branca e avistarem o rapaz afro descendente se aproximando, de imediato elas largam tudo e vão requebrando na direção dele.

Vou parar por aqui. São duas da manhã e me deu vontade de comer pastel de feira.

Estou aborrecido e vou dormir.

Diego Gianni