O erro...

“E então ele esfregou as mães de contentamento”....Foi assim, com essa frase errada, que ele finalmente tornou-se um escritor de renome . Apesar da revisão minuciosa que anteviu a publicação do livro, ele deixou passar o erro crasso de digitação e, o que era para ser “mãos”, acabou ficando “mães”.

Ele entrou em desespero quando viu isso. Pudera. “Esfregar as mães”, além de não fazer o menor sentido (já que mãe só tem uma), tinha um ar cômico que com toda a certeza tiraria a dramaticidade de seu livro.

Porém, para seu tremendo espanto, as críticas destacaram esta frase não como um equívoco, mas sim como um “toque de brilhantismo por parte do escritor”. Uma frase tão genial e inusitada dava brecha para inúmeras interpretações.

- Esfregar as mães é um gesto freudiano que está implícito desde o terceiro capítulo. – dizia um.

- E repare bem: – dizia outro – esfregou as mães com contentamento, o que mostra uma inocência tão grande no ato que se torna até difícil julgar.

Ganhou prêmios e mais prêmios com o livro, livro que não tinha nada de interessante, exceto pela frase que só ele sabia que havia sido um erro. Um erro bobinho de digitação.

- Ou não. – ponderou o escritor - Talvez haja um gênio adormecido dentro de mim. Talvez eu tenha trocado as palavras inconscientemente.

Mentindo ou não para ele mesmo, fato é que a pequena editora que publicou seu livro enriqueceu – graças a ele - e firmou um contrato quase que vitalício com o escritor. Ele já podia começar a escrever um segundo romance, tão ou mais genial que o primeiro.

Só que agora, ele não sabia o que fazer. Parou de se auto enganar e concluiu em pensamento (bem baixinho, para ninguém ouvir) que não tinha o menor jeito para ser escritor. Sua ascensão rápida como ejaculação precoce se devia a um erro e nada mais. Erro maior ainda seria insistir em escrever um novo livro, pois certamente seria um fracasso e destruiria sua bela reputação incidental.

- A não ser – pensou num estalo - ...que eu troque palavras de propósito. Sim, sim, pode dar certo!

Então, pelas mãos dele, a porta torceu o rabo, dois coelhos foram mortos com uma cajuzada só, o rato roeu a roupa do gay de coma e não sei quem chorou sobre o deleite derramado.

Só que desta vez ele caiu do robalo. A crítica foi letal e sua carreira abotoou o paletó de madeixa.

Ora a lenda que ele terminou seus dias num sitiozinho, criando e vendendo andorinhas – centenas de milhares delas, já que uma andorinha só não faz inverno.

Chá outros, mais maldosos, dizem que foi direto para um hospício e lá ficou a imaginar que era um escritor cada vez mais respeitado. Feliz, por assim dizer.

Esfregando as mães de contentamento.

Diego Gianni

(05/06/09)