Frescuragem....

Toda vez que o Everaldo ia visitar o pai na fazenda, levava uma novidade da “cidade grande”. E era difícil agradar o velho.

- Que geringonça é esta?

- É um relógio, pai.

- E cadê os pontero?

- Ele é digital.

- É de brinquedo?

- Não, pai. Olha só. Você vê as horas apertando este botão aqui.

- Daí os pontero aparéce?

- Não tem ponteiro, por isso ele é digital.

- Que coisa. Mas pra que você ta me dando esse troço, meu fío?

- Ele é um despertador.

- E pra que serve?

- Pra você acordar a hora que você quiser.

- Eu já acordo a hora que eu quero.

- Mas com o despertador você não corre o risco de se atrasar...

- Diacho! Atrasá pra quê?.

- Poxa, pai. Será que eu nunca vou acertar um presente pro senhor? Achei que você fosse gostar.

- Mas gostei, mas gostei! Vou deixar guardado junto com os ôtro.

- Ah sim. Os outros. O computador. A geladeira. A máquina de nhoque. Tudo jogado no canto e esquecido pra sempre. Pobre deste despertador. – suspirou melancolicamente Everaldo.

O pai olhou amuado para o relógio sem ponteiros, disse num sorriso forçado:

- Acho que posso me acostumá com esta coisa.

- “De nada”, pai. Também te amo.

Everaldo foi embora e o pai ficou coçando a cabeça, encafifado, só de olho naquela bobagem digital movida a bateria, essas “modernidades dos frescos lá da cidade”.

* * *

Vevê fazia biquinho em frente ao espelho, treinando forçadamente um sotaque francês que ele não tinha.

- Se meu velho desconfiasse que eu estudo francês... – pensou ele com um certo tremor que fez ele ter vontade de rir.

Vevê, registrado em cartório como Everaldo, tinha acabado de voltar da fazenda onde escapuliu ao completar a maioridade para estudar moda na cidade. O pai, um rígido fazendeiro, jurava de pés juntos que o filho era “dotô”. E ainda assim tinha vergonha. Queria mesmo era que o filho tivesse sucedido ele na fazenda, lidando com porcos, burros, bezerros, isso sim era vida, e vida de macho, não aquela moleza e frescuragem da capital.

“Blim blom”.

- Deve ser ele. – sorriu Vevê.

“Ele” se chamava Pierre, namorado e professor de francês.

Ao abrir a porta com um sorriso ensaiado e uma maquilagem levemente carregada – tudo para agradar Pierre -, Vevê se espantou ao ver um galo.

É, um galo. E por mais que galos não soubessem tocar campainhas, este até falar falava.

- Você é o Everaldo?

- S-sim... – balbuciou Vevê, sem saber, assinando sua pena de morte.

- Você tirou meu emprego! – vociferou o galo, partindo para cima de Everaldo a facadas.

- E-emprego...?

Quando Pierre chegasse, meia hora atrasado, só iria ter tempo de encontrar o corpo retalhado de Vevê. Assassinado a sangue frio, sem pistas, sem provas. Pudera.

O galo fugiu á francesa.

Diego Gianni